A Sombra

Atualizado: 21 de jun. de 2020


Em um dia muito quente de verão - daqueles escaldantes mesmo -, surgiu no mundo uma sombra sem corpo. Era totalmente desgrudada de qualquer pessoa, planta, objeto ou animal. Não pertencia a nenhuma coisa e a nenhum ser. Por isso, vagava sozinha.


Ao meio-dia, todas as sombras se recolhiam para dormir sob os corpos que acompanhavam. A solitária, no entanto, permanecia ali, insone. Só conseguia descansar quando a noite chegava e as luzes ao seu redor eram totalmente apagadas.


Não demorou para que as outras percebessem sua diferença. Algumas a elogiavam, dizendo que era um espírito livre. A maioria delas, no entanto, torcia o nariz. Seria um fantasma? Uma nova forma de corpo? A sombra de um homem invisível? Os boatos circulavam.


A sombra solitária não conhecia seu lugar no mundo. Por isso, arriscava-se a acreditar em todas as histórias que ouvia ao seu respeito. Imaginou se não seria a sombra do vento, da água, da chuva, da nuvem. Talvez ela fosse a sombra dos vitrais que decoram as janelas do céu. Ou a sombra de um anjo. Ou a sombra de um demônio.


Teve muito medo. Sabia muito bem que cada sombra gostava de esticar e encolher ao longo do dia, mas nunca deixava de se parecer - ao menos um pouquinho - com o corpo que acompanhava. A sombra da flor era desenho de flor. A sombra do cão era desenho de cão. E ela? Uma sombra sem corpo não tem formato definido. Alarga, estica, repuxa e encolhe sem nunca ser igual.


As outras sombras riram. E ela chorou.


Resoluta, procurou ligar-se a um corpo. Melhor ainda se fosse um corpo também sozinho. Afinal, se era possível haver sombra sem coisa ou ser, talvez fosse possível existir ser ou coisa sem sombra. Iniciou, assim, longa busca. Visitou mil lugares no mundo. Viajou. Foi ao topo das montanhas e desapareceu no oceano.


Nunca encontrou, em toda a sua jornada, corpo que pudesse tomar para si. Enquanto enfrentava tão dura odisseia, via tantas outras contando piadas e demonstrando desprezo. Não há lugar no mundo para uma sombra sem corpo. A sombra só tem razão de ser por causa do corpo que a acompanha. Uma sombra sem corpo é imprestável. Não deveria existir.


Alimentada em seu ódio revoltoso, a sombra aproveitou a ausência de um corpo para esticar-se. Sem poder gritar, inchou, inflou, cresceu. Tornou-se tão grande que fez muitas outras se esconderem, amedrontadas. Primeiro, cobriu algumas casas. Depois, uma cidade inteira. Logo, todo um país estava no breu.


A situação ficou tão séria que, pela primeira vez, os homens a notaram. Mandaram chamar todo o tipo de autoridade - físicos, o presidente da república, homens religiosos. Alguém pintou um cartaz: é chegado o fim do mundo.


No auge do alvoroço, a sombra solitária estendeu os olhos marejados para o céu e notou um clarão. Era o Sol. Quente, abafava cidades, bronzeava corpos, energizava plantas. Oh! Como era lindo! Lindo de morrer! Lindo de matar! Que tristeza ser, além de solitária, uma sombra. Sentia-se o esterco da luz.


Olhou para baixo e percebeu os homens espantados. Alguns gritavam, outros tiravam selfies. Na TV, no rádio ou na internet, ela era o único assunto: a sombra inexplicável que, no meio do verão, trouxe alívio.


Desfeita sua raiva, tornou a si. Para não assustar os homens, preferiu encolher devagar. A noite chegou e todos adormeceram. No dia seguinte, quando acordassem, ela já não estaria ali. Recolheu-se por algumas semanas. Esperou que os jornais mudassem de ideia sobre sua importância e começassem a falar sobre novas notícias.


Depois disso, a sombra sem corpo fugiu para a praia. Gostava de ver os raios de Sol enfeitando o mar, cintilando entre ondas e espumas. Crianças esbaforidas carregavam (ou comiam) areia. Ao meio-dia, quando as companheiras se recolhiam - sem dirigir qualquer palavra a ela, em um misto de mágoa e temor-, a sombra sem corpo timidamente esticava-se em um canto da areia. E esperava.


Uma ou duas crianças cobertas de protetor solar notavam sua presença e construíam castelos de areia abaixo delas. Às vezes, um casal parava ali para namorar. Os vendedores ambulantes se acostumaram com a presença inusitada. Não raro, chegava a ouvir elogios. Alguns tão bonitos que, se fosse possível, ficaria corada.


A sombra sem corpo passou a amar sua nova forma de viver. Viajou pelo mundo novamente, dessa vez reparando bastante nas praias e demorando-se em cada uma delas. Tornou-se, para si mesma, um alívio de verão. Sua paz é tão profunda que chega a trazer alegria. Nos dias mais quentes, enquanto uma idosa abriga-se ali para não passar mal com tanto calor, chega a esquecer de que não tem um corpo. Nos outros - especialmente os de inverno europeu - lembra bem e ainda sofre. Mas sofre sabendo.