Não dar nome pode ser uma forma de dar rosto

Digo isso a respeito de personagens.


Você já reparou como, ao não nomear personagens, alguns autores conseguem ressaltar determinadas características deles?


🦉Francine Prose, no livro Para Ler como um Escritor, analisa um parágrafo de “A good man is hard of find”, de Flannery O’Connor.


Entre outros aspectos, Prose observa a ausência de substantivos próprios para as personagens – e as consequências disso para o texto.


Sobre uma personagem matriarca, ela nota que “Chamá-la de ‘a avó’ a reduz imediatamente a seu papel na família (...) Ao mesmo tempo, o título dá a ela (...) um papel arquetípico, mítico, que a eleva e impede que fiquemos íntimos demais dessa mulher cujo nome nunca chegamos a saber”.





🦉José Saramago, em Ensaio Sobre a Cegueira, usa esse recurso de forma semelhante. Não conhecemos o nome de nenhum dos personagens desse romance.


A protagonista é chamada de “mulher do médico” – de modo que não sabemos sua profissão ou características marcantes de sua aparência (forma como a maioria dos personagens é designada: “médico”; “rapariga dos óculos”; “velho”…).


Curiosamente, a “mulher do médico” ganha importância na história justamente ao tentar proteger o marido e, em diferentes situações, por escolher não abandoná-lo.


Em uma entrevista para a Folha, Saramago disse, sobre a ausência de substantivos próprios, tanto no Ensaio quanto em outro livro:


“É como se, neste momento, os temas que eu trato (...) fossem de caráter tão amplo e geral que os nomes deixam de ter sentido. Chamar o personagem Antonio, ou Manuel, o que significa?”


Assim, ao não nomear a “mulher do médico”, o escritor português parece tentar aproximá-la de uma condição humana (e, talvez, feminina) mais geral.


Além disso, a ausência absoluta de nomes para os personagens contribui para reforçar a desumanização que enfrentam ao longo do enredo: cegos por uma epid&mia, abandonados e trancafiados em um sanatório, as cenas de violência e tristeza são inúmeras.


Assim, enquanto O’Connor usa a falta de nome para distanciar e elevar a avó, Saramago, por outro lado, lança mão do mesmo recurso para nos conectar aos seus personagens degradados.


🦉Penso, portanto, que essa maneira de tratar as personagens não é um elemento isolado. Outras escolhas de palavras, assim como a própria trama, reforçam e são reforçadas pela ausência do nome próprio.


Por isso, é importante ter cuidado com regras prontas, do tipo “não dar nome para mostrar que não é importante” ou “não dar nome para parecer misterioso” – ou qualquer fórmula afim.


Ao nomear (ou não) os personagens, precisamos, como escritores, pensar sobre o impacto específico dessas escolhas sobre cada um de nossos textos.


🧶 Para pensar:

Como se chamam seus personagens preferidos?

O nome que receberam – ou deixaram de receber – tem razão de ser ou são aleatórios?

Como você escolhe o nome dos seus personagens?