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Naquele verão, surgiu no mundo uma sombra sem corpo

Atualizado: 8 de fev.

Diário de Criação | Capítulo 01




2020 estava só começando, e eu ainda não fazia ideia dos desafios que enfrentaria naquele ano. 


Eu estava em casa fazendo qualquer coisa rotineira – ler, lavar a louça, bater um papo – quando, de repente, senti uma vontade muito forte de escrever. 


Na hora, eu não tinha nenhuma ideia. Não imaginei um personagem, não pensei em uma frase ou em uma palavra… Eu só sentia um impulso urgente, urgentíssimo, de sentar diante do computador e começar a escrever. 


Não lembro quase nada sobre aquele dia. O que eu estava fazendo exatamente? E o tempo? Fazia calor, chuva, céu nublado? Quem estava na casa? Não sei. 


Só consigo lembrar daquela vontade louca, daquela necessidade. Algo como estar desesperadamente apertado para ir ao toalete. 


Então, me rendi. 


Costumo ser uma escritora planejadora. Antes de colocar as palavras no papel, elas passam um tempo na minha cabeça. Versos, citações, imagens… Eu vou anotando, anotando… Ou pensando e pensando… E imaginando e planejando… Até juntar tudo em forma de poema e, depois, finalmente, em livro. 


Mas naquele dia eu não parecia eu. 


Sentei e escrevi. Eu só precisei abrir a janela do Google Docs para que nascesse a primeira frase: “Naquele verão, surgiu no mundo uma sombra sem corpo”


E a frase seguinte, igualmente rápida, veio logo em seguida. Depois a terceira, a quarta… Três páginas inteiras sem parar para revisar, para repensar, para arrumar uma vírgula. 


Até então, minha experiência mais parecida com aquela eram exercícios de escrita espontânea ou a vez em que um haicai nasceu inteirinho (com métrica e tudo!) na minha cabeça:


três gotas de chuva
escorregam no telhado
tudo é molhado

Assim que acabei, eu senti cansaço e alívio. Sabia que estava diante de um texto bem diferente daqueles que, até então, estava habituada a escrever. 


Pesquisei no Google por histórias de sombras sem corpo. Será que isso partiu de alguma referência que minha cabeça guardou sem que eu percebesse, sem que me lembrasse? Achei algumas histórias e ideias com sombras, mas nada realmente parecido com o que eu tinha acabado de escrever. 


Reparei nas imagens do texto. 

No jeito meio truncado que ele tinha. 

Até gostei dele, naquela hora. Nutri alguma afeição. 


Salvei e deixei guardado. Ainda não sabia o que faria com ele, mas queria muito mostrá-lo a alguém. 


Poucos meses depois, tive a primeira oportunidade de fazer isso. Enviei A Sombra (esse era o título da primeira versão) para uma revista digital de artes. E postei aqui no meu blog – que é meio flopado, quase ninguém lê. 


Quando recebi o aceite da revista, retirei o texto do ar e fiz a primeira revisão dele. 

Eu já sabia que aquela história não acabaria ali.


Muitos meses depois (Em 2022? Em 2023? Não lembro bem…) a revista que publicou "A Sombra" foi descontinuada. Os números saíram do ar e, de repente, meu original estava de volta à gaveta. 


Quando percebi isso, estava às voltas com a divulgação do Burnoutinho – meu segundo livro de poesia, com muitos estudos e trabalhos. Não havia espaço para Sombra e, ainda que houvesse, eu sabia que precisava amadurecer aquela ideia.


Apenas no final de 2023 pude começar a trabalhar nisso. 


Três anos muito agitados e significativos me separavam da primeira versão do texto e, sobretudo, da versão de mim que havia escrito "A Sombra". 


No próximo capítulo, quero te contar que caminhos o livro percorreu até seu formato final, que será publicado em breve. 





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